O flamenco não se compreende sem as suas mulheres. Por trás de cada compasso, cada sapateado e cada braceado há gerações de bailaoras que transformaram uma arte popular andaluza numa linguagem universal de emoção e disciplina. Escolher “as melhores” é sempre um exercício subjetivo, porque o flamenco se mede em duende, não em medalhas. Ainda assim, há nomes que é impossível deixar de fora de qualquer revisão séria da história da dança flamenca.
Aqui tem doze das figuras que mais marcaram esta arte, desde as pioneiras do início do século XX até às criadoras que hoje continuam a reinventá-lo.
Carmen Amaya, a revolução no palco

Se há um nome que resume a força da dança flamenca feminina, esse é o de Carmen Amaya. Nascida no bairro barcelonês de Somorrostro, no seio de uma família cigana,
Amaya rompeu com tudo o que estava estabelecido: dançava com uma energia e uma velocidade de pés que até então eram consideradas terreno exclusivo dos homens, e chegou mesmo a vestir calças para poder executar os seus sapateados sem limites. Triunfou nos palcos de Nova Iorque e Hollywood, e o seu nome continua a ser sinónimo de autenticidade e rebeldia artística.
La Argentina (Antonia Mercé), a que levou a dança aos grandes teatros

Antonia Mercé, conhecida como “La Argentina”, foi uma autêntica inovadora. Formada também na escola bolera, soube fundir essa técnica clássica com o flamenco e levá-lo aos teatros de ópera de toda a Europa, algo impensável na sua época.
Foi também uma grande impulsionadora da música espanhola de concerto, colaborando com compositores como Manuel de Falla. É considerada uma das mães da dança espanhola entendida como disciplina cénica de prestígio internacional.
Pastora Imperio, elegância e cante feito dança

Pastora Rojas Monje, artisticamente Pastora Imperio, foi uma das grandes figuras do primeiro terço do século XX. Nascida em Sevilha, destacou-se por uma elegância natural e pela sua capacidade de fundir a dança com o cante de forma quase teatral.
A sua arte transcendeu fronteiras e contribuiu decisivamente para converter o flamenco em espetáculo, abrindo caminho para as gerações que viriam depois.
Encarnación López, “La Argentinita”

Contemporânea e rival artística de La Argentina (daí o seu apelido), Encarnación López foi coreógrafa, cantaora e bailaora, e uma figura chave na recuperação do folclore espanhol durante os anos vinte e trinta.
Trabalhou com Federico García Lorca na recolha de canções populares e levou a dança espanhola à Broadway, consolidando o seu prestígio como uma das artistas mais completas da sua geração.
Trinidad Huertas, “La Cuenca”

Menos conhecida para o grande público, mas fundamental para os aficionados, “La Cuenca” representa essa geração de bailaoras do pós-guerra que mantiveram viva a chama da dança nos tablaos madrilenos e sevilhanos quando o flamenco vivia tempos de escassez e precisava de mãos firmes que não deixassem perder a sua pureza jonda.
Manuela Vargas, a força sevilhana

Manuela Vargas foi uma das grandes bailaoras da dança por bulerías e por soleá, com um temperamento cénico avassalador. A sua carreira, desenvolvida tanto em tablaos como em grandes produções internacionais, tornou-a uma embaixadora do flamenco mais cigano e visceral durante boa parte do século XX.
La Chunga, magnetismo e descaramento

Micaela Flores Amaya, “La Chunga”, pertencente também ao legado familiar de Carmen Amaya, ganhou fama pelo seu carisma avassalador e pela sua maneira descontraída de estar em palco.
A sua dança, cheia de graça e descaramento, tornou-a uma das bailaoras mais queridas do tablao flamenco durante os anos sessenta e setenta.
Cristina Hoyos, a técnica feita arte

Cristina Hoyos é uma das bailaoras mais influentes da segunda metade do século XX. A sua colaboração com Antonio Gades em filmes como Bodas de sangre, Carmen ou El amor brujo levou o flamenco ao cinema e a públicos que jamais tinham pisado um tablao.
A sua técnica apurada e a sua capacidade expressiva tornaram-na uma referência para várias gerações de bailaoras posteriores.
Merche Esmeralda, o selo de Triana

Formada no bairro sevilhano de Triana, berço histórico do flamenco, Merche Esmeralda desenvolveu um estilo marcado pela pureza de linhas e uma enorme musicalidade.
Foi durante anos uma das bailaoras mais respeitadas do Ballet Nacional de Espanha, aportando rigor e profundidade a cada montagem em que participou.
Sara Baras, a bailaora mais popular do presente

Sara Baras é provavelmente o nome mais reconhecível do flamenco atual fora dos círculos especializados. À frente da sua própria companhia desde o final dos anos noventa, levou a dança flamenca a palcos de todo o mundo com espetáculos de grande formato, combinando a tradição mais clássica com uma encenação moderna e muito cuidada. A sua popularidade tem sido chave para aproximar o flamenco a novas audiências.
Eva Yerbabuena, a vanguarda com raiz

Eva Yerbabuena representa a geração de bailaoras que, sem renunciar à ortodoxia da dança jonda, souberam levá-la para terrenos mais contemporâneos. A sua companhia, sediada em Sevilha, tem sido reconhecida internacionalmente por espetáculos que combinam uma técnica apuradíssima com uma enorme carga emocional e uma estética muito pessoal.
Rocío Molina, a rutura contemporânea

Fechamos esta lista com uma das vozes mais inovadoras do flamenco do século XXI. Rocío Molina levou a dança flamenca para o terreno da performance e da dança contemporânea, sem nunca abandonar o compasso nem a raiz jonda.
O seu trabalho, premiado em festivais de dança de todo o mundo, demonstra que o flamenco continua a ser uma arte viva, capaz de se reinventar em cada geração.
Um legado que continua a crescer
Esta lista, por mais extensa que seja, deixa de fora dezenas de bailaoras imprescindíveis: Blanca del Rey, María Pagés, Manuela Carrasco, La Tati, Belén Maya ou Farruca são apenas alguns dos nomes que também mereceriam um lugar de destaque. E é que essa é precisamente a grandeza do flamenco: cada geração aporta novas vozes sem que as anteriores deixem de brilhar. De Carmen Amaya a Rocío Molina há quase um século de história, mas o fio que as une é o mesmo: a capacidade de converter a dor, a alegria e a vida mesma em uns poucos minutos de dança capazes de emocionar até o espectador mais cético.
O flamenco continua a evoluir, e com ele, as suas bailaoras. A história, sem dúvida, continuará a escrever novos nomes.